Lob Infinito #013 — Elas chegaram à quadra. Mas quem estava assistindo?
O Brasil Padel Tour feminino finalmente estreou. Uma conquista que merece aplausos. Mas, enquanto celebrava o que acontecia dentro da quadra, outra coisa me incomodava do lado de f

Uma conquista. Duas sensações.
O esporte feminino ganhou mais um espaço. A audiência, porém, ainda precisa ser conquistada.
Entre os dias 23 e 25 de outubro de 2026, o padel brasileiro viveu um momento importante.
Pela primeira vez, o Brasil Padel Tour realizou uma competição feminina.
A estreia aconteceu no EQI Racket Club — um belo clube, diga-se de passagem —, na Praia Brava, em Itajaí, Santa Catarina. Foram 11 duplas inscritas, disputando espaço em um circuito que, até então, tinha suas competições profissionais reservadas aos homens.
Fiquei feliz.
Não por acreditar que uma etapa seja suficiente para corrigir anos de desigualdade de oportunidades, mas porque toda mudança precisa começar em algum lugar.
E começar importa.
Importa para as atletas que treinam, competem e tentam construir uma trajetória no esporte.
Importa para os treinadores que trabalham com o padel feminino.
Importa para as meninas que talvez descubram, pela primeira vez, que existe um caminho competitivo para elas.
Mas, enquanto comemorava essa estreia, uma segunda sensação começou a ocupar espaço.
Tristeza.
Pela impressão de pouco interesse do público.
E, particularmente, pela presença aparentemente pequena das próprias mulheres acompanhando a competição.
Era uma contradição difícil de ignorar.
As mulheres finalmente tinham conquistado um espaço dentro da quadra. Mas onde estavam as pessoas para vê-las jogar?
Uma conversa que ficou comigo
Às vezes, uma pergunta de poucos segundos provoca uma reflexão que dura muito mais.
Em determinado momento, conversei com alguém que acompanha de perto o cenário do padel (BPT)
A pessoa havia passado pelo local e comentou:
— Passei por aqui e só você está assistindo. Cadê as mulheres?
Não estava literalmente sozinho.
Havia outras quatro pessoas por perto. Duas mulheres acompanhavam a partida, enquanto outras duas pessoas estavam apenas sentadas.
Mas a pergunta fazia sentido.
Respondi:
— Estão ali, assistindo ao jogo masculino.
E a conversa terminou praticamente aí.
Mas a pergunta continuou comigo.
Porque havia algo de desconfortável naquela cena.
De um lado, mulheres disputando uma competição que representava um avanço importante para o padel brasileiro.
Do outro, mulheres acompanhando a competição masculina.
Não havia nada de errado nisso, evidentemente. Ninguém deveria ser obrigado a assistir a uma partida apenas porque compartilha o gênero de quem está jogando.
Mas o contraste despertou uma inquietação.
Se nem mesmo a novidade de uma competição feminina é suficiente para despertar a curiosidade de parte das mulheres que já frequentam o padel, como vamos construir uma audiência para essas atletas?
Talvez a resposta não esteja simplesmente na falta de apoio.
Devemos ir mais profundo: nossos hábitos de consumo esportivo, nossas referências e os personagens que aprendemos a admirar.
E, naquele momento, percebi que a estreia do Brasil Padel Tour feminino trazia duas notícias.
Uma excelente: as mulheres finalmente tinham mais um espaço para competir.
Outra que merecia reflexão: conquistar espaço dentro da quadra não significa, necessariamente, conquistar atenção fora dela.
A pergunta que talvez incomode
Uma arquibancada pouco ocupada não explica todo o problema. Mas pode revelar perguntas que preferimos evitar.
Antes de continuar, preciso fazer uma ressalva.
Não tenho um levantamento oficial de público separado por gênero. Também não tenho dados consolidados de audiência da transmissão.
Portanto, não posso afirmar que as mulheres, de maneira geral, deixaram de acompanhar o evento.
O que tenho é uma percepção. E ela merece ser tratada como percepção, não como estatística.
Ainda assim, algumas perguntas não deixam de ser importantes apenas porque não temos todos os números.
Por que uma competição feminina não desperta, necessariamente, o interesse das próprias mulheres que praticam aquele esporte?
Por que podemos defender a existência de mais oportunidades para atletas mulheres e, ao mesmo tempo, não acompanhar as oportunidades que começam a surgir?
E uma pergunta ainda mais desconfortável:
Será que estamos mais interessados na ideia de apoiar o esporte feminino do que no esporte feminino propriamente dito?
Não escrevo isso para apontar culpadas.
Até porque seria cômodo demais transformar uma questão cultural, construída ao longo de décadas, em responsabilidade individual de quem não apareceu para assistir a uma partida.
Mas também me parece insuficiente celebrar a estreia, publicar uma fotografia e considerar o trabalho concluído.
Criar a competição é um passo.
Transformá-la em algo que as pessoas desejem acompanhar é outro.
E talvez o segundo seja mais difícil.
Ninguém torce por aquilo que não conhece
Antes de existir uma torcida, alguém precisa apresentar os personagens da história.
Pense em como alguém se torna torcedor de um esporte.
Raramente começa com uma reflexão sobre sua importância social.
Começa com uma história.
Um jogador que impressiona.
Uma rivalidade.
Uma virada improvável.
Uma derrota dolorosa.
Um campeonato que passa a significar alguma coisa.
Com o tempo, aprendemos os nomes, reconhecemos os estilos, escolhemos favoritos e criamos expectativas.
De repente, uma partida entre dois desconhecidos deixa de ser apenas uma partida.
Torna-se o próximo capítulo de uma história que queremos acompanhar.
O esporte masculino teve décadas para construir esse repertório.
Ídolos foram apresentados. Rivalidades foram narradas. Competições ganharam tradição. Empresas investiram. A imprensa repetiu os nomes até que eles se tornassem familiares.
Não aconteceu espontaneamente.
Foi um processo de construção cultural e comercial.
Agora esperamos que uma competição feminina recém-criada consiga despertar imediatamente o mesmo interesse?
Talvez estejamos cobrando o resultado de uma história que ainda não tivemos a paciência de contar.
Não é possível criar uma tradição sem permitir que ela tenha um começo.
O problema não é tão simples quanto parece
Ser mulher não significa automaticamente acompanhar o esporte feminino. Os dados ajudam a compreender essa diferença.
Existe um dado que ajuda a complicar nossa primeira impressão.
Em uma pesquisa internacional divulgada em 2024 pela SurveyMonkey e pela Parity, 23% dos homens entrevistados afirmaram assistir a esportes femininos diariamente ou semanalmente, contra 15% das mulheres.
Sim.
Naquela pesquisa, homens relataram acompanhar esportes femininos com maior frequência do que mulheres.
O resultado não descreve especificamente o padel brasileiro, muito menos a estreia do BPT feminino.
Mas nos impede de aceitar uma explicação simplista.
O interesse por competições femininas não surge automaticamente da identificação de gênero.
Ser mulher não significa necessariamente gostar de assistir a esportes femininos.
Assim como ser homem não significa acompanhar todas as modalidades masculinas.
Torcer é um comportamento aprendido, influenciado pela exposição, pelas experiências, pelos vínculos sociais e pelas histórias às quais atribuímos significado.
Talvez, portanto, a pergunta não seja apenas por que havia tão poucas mulheres assistindo.
Talvez seja:
O que estamos fazendo para que essas mulheres tenham motivos para querer assistir?
E aqui a responsabilidade começa a se espalhar.
Organizadores.
Clubes.
Treinadores.
Atletas.
Imprensa.
Marcas.
Criadores de conteúdo.
E, naturalmente, nós, que dizemos gostar tanto desse esporte.
Visibilidade não é o mesmo que pertencimento
Dar espaço às atletas não significa entregar a elas toda a responsabilidade de conquistar o público.
Em 2025, pesquisadores publicaram um artigo no Communication & Sport discutindo um dilema da exposição das atletas.
A visibilidade pode abrir oportunidades de reconhecimento, patrocínio e identificação com novas gerações.
Mas também pode trazer custos, como comentários sexistas, pressão sobre a imagem pública e a exigência de que as próprias atletas assumam o trabalho de produzir conteúdo e atrair audiência.
É uma observação importante.
Quando uma competição feminina começa, frequentemente esperamos que as atletas façam tudo.
Que treinem.
Que joguem bem.
Que consigam resultados.
Que atraiam patrocinadores.
Que divulguem as partidas.
Que produzam vídeos.
Que construam suas próprias comunidades.
Que convençam as pessoas a assistir.
E, se a audiência não aparece, começamos a questionar a viabilidade da competição.
Curioso.
Criamos um palco e, pouco depois, cobramos das protagonistas que também sejam responsáveis por encher o teatro.
Isso não significa que as atletas não tenham um papel na divulgação do esporte.
Significa apenas que não podemos transferir para elas toda a responsabilidade por um sistema que ainda está sendo construído.
A audiência é consequência de muitas decisões que acontecem antes da primeira bola entrar em jogo.
O círculo que precisamos interromper
Sem público, falta investimento. Sem investimento, falta exposição. E a falta de exposição afasta o público.
Existe uma armadilha econômica e cultural no desenvolvimento de modalidades com pouca exposição.
Sem público, os patrocinadores encontram menos razões para investir.
Sem investimento, torna-se mais difícil melhorar a estrutura, promover eventos, remunerar atletas e ampliar a divulgação.
Sem divulgação, o público dificilmente descobre as competições.
E, sem público, o argumento da falta de interesse reaparece.
O ciclo se alimenta.
Não é uma lei inevitável. É uma dinâmica possível, que diferentes esportes e mercados conseguem modificar com investimentos e estratégias de longo prazo.
A Nielsen, empresa internacional fundada em 1923 e uma das principais referências mundiais em medição de audiência e análise do consumo de mídia, divulgou um dado interessante.
Nos Estados Unidos, o consumo de transmissões esportivas femininas atingiu 46 bilhões de minutos assistidos em 2025, crescimento de 71% em relação a 2022.
Isso não significa que o padel feminino brasileiro seguirá a mesma trajetória.
Mas revela algo importante:
A audiência não é necessariamente uma condição que precisa existir antes do investimento. Ela também pode ser resultado dele.
É importante fazer essa distinção. Os números mostram um mercado em expansão, mas não demonstram, isoladamente, que um determinado investimento tenha provocado esse crescimento.
Ainda assim, eles ajudam a questionar a ideia de que competições femininas estão condenadas a permanecer sem público.
A audiência pode ser construída.
E construir exige mais do que esperar que as pessoas apareçam.
Exige tornar o evento conhecido, facilitar seu acesso, apresentar suas protagonistas e oferecer razões para voltar.
Uma menina precisa saber que é possível
O papel das referências esportivas na construção de sonhos e possibilidades.
Há outra dimensão dessa história que me interessa especialmente como treinador.
Em 2023, Claire Midgley, Penelope Lockwood e Lisa Hu publicaram uma pesquisa envolvendo dois estudos, com 1.522 participantes, sobre o papel dos modelos de referência na motivação.
Os resultados sugerem que exemplos de pessoas próximas podem ser especialmente motivadores. Entre as mulheres, modelos femininos também apresentaram importância particular, inclusive no contexto esportivo.
Uma das explicações investigadas envolve a percepção de que aquela trajetória é alcançável.
Isso me faz pensar nas meninas que hoje estão começando a jogar padel.
Elas talvez conheçam Arturo Coello.
Agustín Tapia.
Ale Galán.
Talvez acompanhem seus vídeos, conheçam suas raquetes e tentem reproduzir seus golpes.
Mas quantas conhecem as principais jogadoras brasileiras?
Quantas sabem quem venceu os campeonatos nacionais?
Quantas já assistiram a uma final feminina profissional?
Não conheço essas respostas. E seria interessante investigá-las entre minhas próprias alunas.
Porque talvez exista uma diferença importante entre ensinar uma menina a jogar padel e apresentar a ela a possibilidade de construir uma trajetória nesse esporte.
O primeiro acontece na aula.
O segundo depende também do mundo que mostramos a ela.
É importante não romantizar essa relação. Uma revisão científica de 2024 encontrou limitações metodológicas importantes nos estudos de intervenções com modelos esportivos femininos. Portanto, não podemos garantir que assistir a uma atleta profissional fará uma menina permanecer no esporte.
Mas podemos reconhecer a importância de ampliar suas referências e investigar como elas influenciam suas escolhas.
Uma menina não precisa necessariamente sonhar em ser atleta profissional.
Mas deveria ter a oportunidade de sonhar, caso quisesse.
E é difícil desejar um futuro cuja existência você sequer conhece.
Uma pergunta para nós, treinadores
Se queremos formar atletas que admirem outras atletas, precisamos ajudá-las a conhecer essas histórias.
Escrevendo isso, percebo que seria muito fácil cobrar mais atenção das mulheres.
Mas e eu?
Quantas vezes apresentei às minhas alunas uma jogadora brasileira para acompanhar?
Quantas vezes usei um ponto de uma partida feminina como exemplo técnico ou tático durante uma aula?
Quantas vezes recomendei assistir a uma competição feminina?
Se quero que minhas alunas conheçam essas atletas, não posso depender exclusivamente de um algoritmo que talvez nunca lhes mostre uma partida.
Preciso fazer minha parte.
E isso vale também para os clubes.
Organizamos torneios, divulgamos horários, promovemos aulas e celebramos o crescimento das turmas femininas.
Mas será que estamos ajudando a transformar praticantes em espectadoras?
Será que damos às atletas profissionais a mesma atenção que dedicamos aos homens?
Não tenho a pretensão de transformar essas perguntas em um julgamento moral de quem não assistiu.
Também não acho razoável exigir que alguém acompanhe uma competição apenas por obrigação.
Esporte precisa despertar interesse.
Mas esse interesse não precisa surgir do nada.
Ele pode ser cultivado.
Apoiar não é apenas aplaudir
Entre defender uma causa e participar dela existe uma diferença chamada comportamento.
Talvez aqui esteja o ponto mais delicado desta edição.
Defender mais espaço para as mulheres no esporte é importante.
Celebrar iniciativas como o BPT Women também.
Mas existe uma distância entre concordar com uma causa e participar concretamente de sua construção.
É relativamente simples publicar uma mensagem comemorando a estreia de uma competição.
Mais difícil é reservar parte do sábado à tarde para assistir.
Conhecer as jogadoras.
Compartilhar uma partida interessante.
Convidar uma amiga para acompanhar a próxima etapa.
Ou aceitar que o início de uma modalidade talvez ainda não ofereça toda a estrutura e o espetáculo que aprendemos a esperar de circuitos consolidados.
Não se trata de assistir por caridade.
As atletas não precisam de um favor.
Precisam de oportunidades para que seu desempenho seja conhecido, apreciado e discutido.
Apoiar o esporte feminino não deveria significar fingir interesse. Deveria incluir a disposição de descobrir se existe algo ali pelo qual vale a pena torcer.
E tenho a impressão de que existe.
Só precisamos olhar.
A responsabilidade que preferimos transferir
Queremos melhores condições. Mas quanto estamos dispostos a contribuir para construí-las?
Queremos premiações melhores.
Queremos hospedagem.
Queremos ajuda de custo.
Queremos patrocinadores, estrutura profissional, calendário organizado e condições semelhantes às oferecidas aos homens.
E são reivindicações legítimas.
As atletas precisam de condições para competir, e o esporte feminino não deveria depender eternamente da boa vontade de quem organiza os eventos.
Mas existe uma pergunta que raramente aparece nessas conversas.
O que estamos fazendo, individualmente, para ajudar a construir aquilo que tanto exigimos?
Porque cobrar é relativamente fácil.
A responsabilidade, curiosamente, costuma estar sempre do outro lado da rede.
É da organização que precisa investir mais.
Da marca que deveria patrocinar.
Do clube que deveria divulgar.
Da imprensa que não oferece espaço suficiente.
E, sim, todos têm responsabilidades.
Mas e nós?
Quando finalmente existe uma competição feminina, podemos simplesmente escolher assistir.
Sentar por alguns minutos.
Conhecer as jogadoras.
Acompanhar uma partida.
Prestigiar quem está tentando construir o caminho que tantas outras dizem querer percorrer.
Mas então começam as justificativas.
“Ah, mas estou cansada…”
“Ah, mas o jogo masculino ali do lado está mais interessante…”
“Ah, mas não conheço nenhuma das jogadoras…”
Evidentemente, ninguém é obrigado a assistir a uma partida. O cansaço pode ser real, e o interesse esportivo não deveria ser uma obrigação moral.
Mas existe uma diferença entre uma escolha individual perfeitamente legítima e um comportamento coletivo que merece reflexão.
Porque, quando essas escolhas se repetem, também ajudam a construir o cenário que depois criticamos.
E aqui acredito que precisamos falar sobre algo que nem sempre é confortável: autorresponsabilidade.
Não podemos transformar todas as dificuldades do esporte feminino em problemas que outras pessoas precisam resolver.
Se queremos um circuito mais forte, também precisamos assumir alguma responsabilidade pelo seu fortalecimento.
Isso vale para mulheres e homens.
Para atletas e treinadores.
Para dirigentes e praticantes.
E vale para mim.
Não estou sugerindo que assistir a uma partida substitua investimentos, políticas de desenvolvimento ou remuneração adequada.
Seria ingênuo pensar assim.
Mas também seria conveniente demais acreditar que nosso comportamento não tem qualquer participação no problema.
Queremos patrocinadores, mas patrocinadores procuram, entre outras coisas, visibilidade e conexão com o público.
Queremos transmissões, mas precisamos ajudar a criar o hábito de acompanhá-las.
Queremos ídolos femininos, mas quantas vezes dedicamos atenção suficiente para conhecer suas histórias?
Queremos que as próximas gerações tenham referências, mas o que fazemos para que essas referências sejam vistas?
Não podemos exigir que o mercado reconheça um valor que nós mesmos não demonstramos interesse em conhecer.
Talvez seja uma afirmação incômoda.
Mas não vejo sentido em defender o crescimento do padel feminino apenas enquanto essa defesa não exige nada de nós.
A verdadeira pergunta não é se temos o direito de cobrar melhores condições.
Temos.
A pergunta é se estamos dispostos a reconhecer que, além de cobrar, também podemos contribuir.
Porque autorresponsabilidade não significa aceitar condições ruins ou aliviar as obrigações de quem detém recursos e poder.
Significa reconhecer a parcela da realidade sobre a qual temos alguma influência.
E agir sobre ela.
Afinal, é difícil construir um esporte que queremos ver valorizado quando nem nós encontramos tempo para valorizá-lo.
A próxima geração está na arquibancada
Talvez uma das maiores conquistas do padel feminino ainda esteja por acontecer fora da quadra.
Gosto de imaginar uma cena.
Uma menina chega a um clube acompanhada da mãe.
Não está ali para jogar um torneio.
Está ali para assistir.
Ela conhece uma das atletas. Talvez tenha visto seus vídeos ou ouvido falar dela durante uma aula.
A partida começa.
Ela escolhe uma favorita.
Comemora os pontos.
Pergunta por que aquela jogadora fez determinada escolha.
Na volta para casa, fala sobre o jogo.
E, na próxima aula, tenta reproduzir um golpe que viu.
Pode parecer uma cena pequena.
Mas a cultura de um esporte também se constrói assim.
Com referências.
Com pertencimento.
Com histórias compartilhadas.
Com alguém que decide voltar para assistir à próxima partida.
Talvez o verdadeiro sucesso do Brasil Padel Tour feminino não seja medido apenas pelo número de duplas inscritas na primeira etapa.
Nem somente pela audiência inicial.
Talvez esteja também no que acontecerá depois.
Na próxima competição.
Na próxima transmissão.
Na próxima menina que descobrir o nome de uma atleta brasileira.
E no dia em que ela não precisar perguntar se existe padel profissional feminino no Brasil.
Porque já estará acompanhando.
Antes de encerrar
Não precisamos resolver todo o problema. Mas precisamos parar de agir como se nenhuma parte dele nos pertencesse.
Volto à sensação que me fez escrever esta edição.
Fiquei feliz pela estreia.
Triste pelo pouco público que tive a impressão de ver.
Mas talvez a conclusão mais importante seja reconhecer que as duas emoções podem conviver.
Podemos celebrar a conquista sem fingir que o trabalho está pronto.
Podemos questionar a audiência sem responsabilizar exclusivamente as mulheres.
Podemos reconhecer os esforços da organização sem deixar de perguntar o que precisa melhorar.
E podemos, sobretudo, trocar uma cobrança genérica por pequenos compromissos.
Na próxima etapa feminina, quero fazer três coisas:
Assistir a pelo menos uma partida e prestar atenção ao jogo, não apenas ao número de espectadores.
Apresentar às minhas alunas pelo menos uma jogadora brasileira para que conheçam sua trajetória.
Compartilhar uma partida ou um lance que mereça ser visto, independentemente de quem esteja jogando.
Não resolverá o problema da audiência.
Mas será melhor do que apenas escrever sobre ele.
E, se você joga padel, talvez possa experimentar alguma dessas ações também.
Afinal, queremos que o esporte feminino cresça.
A questão é se estamos dispostos a participar desse crescimento.
Talvez o próximo grande avanço do padel feminino brasileiro não dependa apenas de alguém disposto a investir mais dinheiro.
Mas de alguém disposto a investir um pouco mais de atenção.
Não são responsabilidades equivalentes. Contudo, ambas importam.
E, enquanto continuarmos perguntando apenas o que os outros precisam fazer, estaremos ignorando uma pergunta muito mais próxima:
O que eu poderia ter feito naquele sábado à tarde?
Estava chovendo, logo não “dava” praia.
A quadra estava ali.
As atletas também.
A oportunidade de assistir, igualmente.
Faltava apenas decidir para onde olhar.
Não basta abrir a porta da quadra. Precisamos construir motivos para que as pessoas queiram ocupar a arquibancada.
E, quando ocuparem, que encontrem atletas, histórias e partidas que as façam querer voltar.
Para continuar pensando
Uma pergunta simples pode revelar o tamanho do caminho que ainda precisamos percorrer.
Deixo uma pergunta, especialmente para quem pratica ou ensina padel:
Você consegue dizer o nome de três jogadoras profissionais brasileiras de padel?
Se a resposta for não, talvez tenhamos encontrado um bom lugar para começar.
E, aos meus três fiéis leitores — nossa robusta base de audiência, capaz de transformar qualquer nova assinatura em uma revolução percentual —, proponho um desafio.
Na próxima competição feminina, tentem assistir a uma partida.
Se cada um levar mais uma pessoa, teremos seis espectadores.
Ainda não é exatamente uma arena lotada.
Mas, convenhamos, já dobramos nossa capacidade de mobilização.
E toda tradição começa com alguém aparecendo.
Ajude este lob a continuar no ar.
Projetos também precisam de pessoas dispostas a aparecer, participar e construir.
O Lob Infinito nasceu da vontade de compartilhar perguntas, descobertas e reflexões que começam no esporte, mas raramente terminam nele.
A leitura continuará gratuita.
Mas, se alguma edição já fez você pensar um pouco mais, questionar alguma certeza ou enxergar o jogo de outra maneira, considere apoiar este projeto com uma assinatura paga.
Assim como no esporte, a continuidade de um projeto depende de pessoas que acreditam nele antes que se torne grande.
Não prometo respostas definitivas. Apenas o compromisso de continuar estudando, escrevendo e compartilhando o que encontro pelo caminho.
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Obrigado por estar aqui.
Luiz Ricardo
O jogo é apenas o ponto de partida.
Referências e leituras
Portal Super Padel (2026). BPT Women estreia em Itajaí como primeira etapa feminina da história do Brasil Padel Tour.
SurveyMonkey & Parity (2024). Pesquisa internacional sobre audiência, consumo e percepção do esporte feminino.
Thompson-Radford, H. & Skey, M. (2025). Theorising a Visibility Bind in Relation to the Growing Prominence of Women’s Sport. Communication & Sport.
Midgley, C., Lockwood, P. & Hu, L. Y. (2023). Maximizing Women’s Motivation in Domains Dominated by Men: Personally Known Versus Famous Role Models. Psychology of Women Quarterly.
Kelly, E. et al. (2024). A Review of the Impact of Sporting Role Model-Led Interventions on Physical Activity and Sport Participation of Female Youth.
Nielsen (2026). The Commercial & Cultural Evolution of Women & Sports. — dados de audiência do esporte feminino nos Estados Unidos.

