Lob Infinito #012 — Hoje eu não queria escrever
Sobre cumprir uma promessa quando ninguém está cobrando.

Hoje eu não queria escrever.
Queria ter uma ideia que tornasse a escrita inevitável. Uma pergunta que pedisse passagem. Uma história que chegasse pronta para ser contada.
Seria conveniente.
Eu abriria o computador, encontraria as palavras e terminaria com a sensação agradável de quem cumpriu um compromisso fazendo exatamente o que estava com vontade de fazer.
Mas havia o compromisso de escrever.
Meu compromisso.
E eu não reconheço compromisso mais importante do que aquele que assumo comigo.
Essa afirmação merece algum cuidado. Tenho responsabilidades com outras pessoas, e elas importam. Mas preciso perguntar o que estou construindo quando trato a palavra que dou a mim como a única que pode ser desconsiderada sem maiores explicações.
Por que ela seria a primeira a perder a validade?
Quando ninguém está cobrando
Se alguém estivesse esperando, eu encontraria um jeito.
Essa frase incomoda porque consigo reconhecer sua lógica.
Há um horário marcado, uma pessoa envolvida, uma entrega combinada. Eu me organizo. Ajusto a agenda. Faço mesmo sem estar especialmente animado.
Quando o compromisso é comigo, porém, a conversa ganha uma flexibilidade extraordinária.
Hoje não estou inspirado.
Amanhã estarei mais descansado.
Na próxima semana consigo fazer com calma.
Minha agenda interna tem um departamento jurídico bastante criativo. Toda promessa vem acompanhada de uma cláusula de adiamento que eu não me lembro de ter assinado.
E, como ninguém reclama, o acordo vai sendo desfeito em silêncio.
A pessoa que prometeu e a pessoa que aceitou a desculpa são a mesma.
É um sistema eficiente. Principalmente para não sair do lugar.
O conforto de não começar
Escrever deixa isso muito visível.
Antes de existir um texto, existe um espaço vazio. E o espaço vazio oferece poucas garantias.
Não sei se a ideia vai se sustentar. Se o começo levará a algum lugar. Se aquilo que parece interessante na cabeça continuará interessante depois de ganhar palavras.
Posso sentar e escrever algo ruim.
Posso trabalhar por uma hora e aproveitar apenas um parágrafo.
Posso descobrir, no meio do caminho, que estava tentando dizer uma coisa em que nem acredito tanto assim.
Esperar uma boa ideia parece uma atitude prudente diante desse cenário.
O problema é que essa espera também pode funcionar como um abrigo. Enquanto não começo, preservo a possibilidade confortável de que faria algo excelente se as condições fossem melhores.
O texto imaginado nunca precisa enfrentar a leitura.
O texto escrito, sim.
O alívio de agora, a conta de amanhã
Existe uma explicação científica que ajuda a olhar para essa resistência.
Em um artigo publicado em 2013, os pesquisadores Fuschia Sirois e Timothy Pychyl discutem a procrastinação como uma forma de priorizar o alívio emocional imediato. Diante de uma tarefa desagradável, adiar pode servir para reduzir o desconforto que ela provoca, mesmo que isso traga consequências para depois.
O trabalho é uma revisão teórica da literatura: reúne pesquisas anteriores para desenvolver essa interpretação, sem estabelecer uma causa única para toda procrastinação.
Essa perspectiva me faz olhar de outro modo para a página em branco.
Escrever exige enfrentar a incerteza, a possibilidade de produzir algo ruim e a distância entre o texto que imagino e aquele que consigo fazer. Fechar o computador permite interromper esse encontro.
O alívio chega antes de qualquer consequência.
A tarefa continua pendente. Por alguns minutos, porém, deixo de sentir o incômodo de tentar realizá-la.
Os autores também discutem como essa preferência pelo alívio presente transfere custos para nosso “eu futuro”. A pessoa que terá de lidar com a tarefa adiada somos nós mesmos, em outro momento.
É um empréstimo curioso: eu recebo o alívio, e o Ricardo de amanhã recebe o arquivo vazio.
Isso não significa que todo adiamento seja procrastinação ou que descansar represente uma falha. A pesquisa oferece uma lente para compreender o adiamento prejudicial; não autoriza julgar toda falta de vontade como falta de compromisso.
Para mim, fica uma pergunta:
Estou adiando porque preciso rever as condições dessa tarefa ou porque quero me livrar do que sinto quando tento fazê-la?
Os dias sem trilha sonora
No esporte, conhecemos uma versão dessa conversa.
Você chega para treinar e percebe que a disposição ficou em casa.
O aquecimento parece demorar mais. A bola incomoda. O exercício que fazia sentido na semana anterior hoje parece uma escolha pessoal do professor para testar sua paciência.
Você preferia estar em outro lugar.
Ainda assim, começa.
Não há garantia de que terminará satisfeito. Existem treinos sem revelação, sem grande evolução percebida e sem uma história bonita para contar depois.
Você fez o trabalho previsto para aquele dia.
Já é alguma coisa.
Passamos tanto tempo celebrando momentos extraordinários que o trabalho comum parece precisar se desculpar por existir.
Mas um projeto também exige dias que não rendem uma narrativa de superação.
Dias em que você aparece, faz sua parte e vai embora.
Sem trilha sonora.
O entusiasmo não assinou o contrato
Ao escrever esta newsletter, eu poderia usar a falta de uma ideia como justificativa para não entregar.
Nossa robusta base de três leitores sobreviveria. Um deles possivelmente só perceberia na semana seguinte, ao organizar as abas abertas.
Por isso, a questão nunca foi o tamanho da cobrança externa.
Fui eu que quis criar este espaço.
Fui eu que decidi estudar, refletir e publicar com regularidade.
Se o compromisso só vale enquanto estou entusiasmado, preciso admitir que ainda não decidi o que fazer com os dias em que o entusiasmo não vem.
E eles também pertencem ao projeto.
A vontade de começar alguma coisa não contém, por si só, todas as disposições necessárias para continuar.
Em algum momento, o interesse convive com o cansaço, a repetição e a resistência. A novidade perde força. Outras atividades parecem mais atraentes.
É nesse ponto que uma decisão precisa encontrar lugar na agenda.
Há uma pergunta que me ajuda a olhar para isso:
A falta de vontade mudou o valor do que eu escolhi fazer?
Hoje não quero escrever. Mas continuo considerando importante ter este espaço?
Continuo interessado em organizar minhas ideias?
Continuo querendo sustentar uma conversa que ultrapasse o comentário rápido e a certeza apressada?
Se as respostas permanecem, há um trabalho a realizar mesmo sem o estado de espírito que eu preferia ter.
Não preciso gostar de cada momento da execução para reconhecer valor no que estou construindo.
Isso vale para escrever, estudar, preparar uma aula e ter uma conversa que venho adiando.
Algumas escolhas continuam fazendo sentido mesmo quando a experiência imediata é desconfortável.
Rever também faz parte
Também preciso deixar espaço para rever uma decisão.
Uma promessa feita a mim não pode se tornar uma ordem impossível de questionar. Posso perceber que assumi mais do que consigo cumprir. Posso mudar de direção. Posso precisar descansar.
Levar minha palavra a sério inclui assumir essas revisões com clareza.
O que quero evitar é uma sequência de adiamentos que decide por mim enquanto continuo dizendo que o compromisso existe.
Se já não faz sentido, preciso reconhecer.
Se faz sentido, preciso encontrar uma forma viável de cumprir.
Hoje, essa forma começa por aceitar que a primeira versão não terá a qualidade que eu gostaria.
Escrever uma frase incompleta.
Registrar uma ideia sem saber onde colocá-la.
Cortar uma abertura que consumiu tempo.
Continuar trabalhando até que alguma coisa se torne mais clara.
Não consigo exigir inspiração para um horário específico. Consigo reservar aquele horário e trabalhar com o que estiver disponível.
A ideia apareceu no caminho
Existe uma humildade nesse processo.
Eu me sento para escrever e descubro que ainda não sei exatamente o que penso.
Preciso formular, ler, desconfiar da frase, tentar de novo.
A ideia que eu esperava encontrar pronta começa a ganhar forma nesse trabalho.
Foi assim que a ausência de assunto se tornou o assunto desta edição.
Havia uma resistência e havia uma escolha anterior.
Coloquei as duas na mesma página.
A partir daí, comecei a investigar o que significa continuar responsável por uma decisão quando a vontade de executá-la desaparece.
O texto nasceu dessa investigação.
Poder contar comigo
Não quero transformar cada dia numa prova de força de vontade.
Quero poder contar comigo.
Quero que uma decisão tomada com cuidado tenha alguma estabilidade diante das oscilações de uma tarde. Que o desconforto de começar não tenha autoridade automática para cancelar aquilo que considerei importante.
Quando prometo algo a outra pessoa, entendo que ela passa a organizar uma parte da vida contando com minha palavra.
Quando prometo algo a mim, também existe alguém contando com isso.
Sou eu, daqui uma semana, um ano, tentando viver o que hoje digo querer construir.
Essa pessoa merece ser levada a sério.
Um presente para o Ricardo de amanhã
Há uma coisa que você continua dizendo que vai fazer?
Algo que ainda importa, mas que depende de um dia mais tranquilo, de uma disposição melhor, de uma certeza que não chega?
Vale olhar para o compromisso e decidir o que ele exige agora.
Pode ser uma revisão honesta.
Pode ser abrir o arquivo e suportar alguns minutos sem saber como começar.
Foi o que fiz com esta edição.
Daqui a uma semana, o Ricardo de amanhã vai abrir o computador diante de outra página em branco. Não consigo deixar uma boa ideia pronta para ele. Mas posso deixar a lembrança deste dia: houve resistência, faltou assunto, e ainda assim um texto ganhou forma.
É o presente que consigo oferecer a ele hoje.
Uma promessa cumprida na qual poderá se apoiar quando precisar começar de novo.
Hoje eu não queria escrever.
Mas eu queria cumprir a palavra que dei a mim.
E, desta vez, essa vontade bastou para começar.
Referência científica
Sirois, F., & Pychyl, T. (2013). Procrastination and the Priority of Short-Term Mood Regulation: Consequences for Future Self. Social and Personality Psychology Compass, 7(2), 115–127.
Artigo — DOI: 10.1111/spc3.12011 · Versão disponível no repositório universitário White Rose Research Online
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O Ricardo de amanhã agradece. O de hoje conseguiu terminar o texto.
Obrigado por estar aqui.
Luiz Ricardo
O jogo é apenas o ponto de partida.
