Lob Infinito #001 — Todo atleta precisa de uma Ítaca
Talvez vencer não seja chegar intacto. Talvez seja descobrir quem volta para casa depois da tempestade.

Ulisses levou dez anos para voltar à Ítaca.
Dez anos atravessando tempestades, enfrentando monstros, companheiros ficando pelo caminho, resistindo a tentações e descobrindo, muitas vezes da pior maneira possível, os limites da própria força física, mental e espiritual.
Quando finalmente retornou, décadas haviam se passado desde sua partida para Tróia.
Mas existe algo um tanto que curioso na Odisseia:
Ulisses passa boa parte da história tentando voltar para o mesmo lugar.
Contudo, o homem que retorna, já não mais é o homem que partiu.
Talvez seja essa dualidade que deixa a história tão atual nos dias de hoje.
Porque todos nós temos uma Ítaca.
E, sem dúvida alguma, todo atleta também tem a sua.
O mar
No esporte, desenhamos em nossa mente a evolução como uma linha ascendente.
Treinar mais.
Jogar melhor.
Subir de categoria.
Ganhar torneios.
Chegar mais longe.
É uma narrativa bonita mas também uma FALÁCIA.
A trajetória real de um atleta se parece muito mais com o mar de Ulisses.
Há dias de vento favorável.
Tempestades.
Partidas em que tudo parece simples e outras em que o braço pesa justamente quando não poderia pesar.
Há lesões.
Derrotas.
Mais derrotas.
Convocações que não chegam.
Parceiros que vem e vão embora, como as ondas que não param.
Expectativas frustradas.
Anos, meses, dias, horas de treinamento que parecem desaparecer em um game quebrado.
E existe uma pergunta que raramente fazemos:
Quem você se torna quando o mar transmuta em ira?
Porque jogar bem quando tudo funciona nada revela.
Continuar navegando quando tudo leva ao naufrágio revela outra coisa.
Os monstros também jogam
Na sua Odisseia como atleta você encontrará monstros
Só que eles não terão um olho no meio da testa.
Eles são discretos, sutis…
não posso perder;
ele é melhor;
minhas maos estao suando;
eu tenho que ganhar;
se eu for campeão terei patrocínio;
após a vitória meu pai ficara feliz;
se eu jogar bem o jantar em casa sera tranquilo;
E talvez o mais perigoso de todos:
Minha melhor jogada é o lob, mas se eu errar?
Pois bem.
Começamos a jogar como o medo permite.
E essa talvez seja uma das derrotas mais silenciosas do esporte.
As ilhas de Calipso
Mas nem toda ameaça aparece como sofrimento.
Algumas aparecem como conforto.
Na Odisseia, Calipso oferece a Ulisses algo extraordinário: permanecer em sua ilha, entregar aos prazeres da carne, imortalidade, juventude, sem dizer das ninfas que a cercavam.
Há uma tentação mais poderosa do que esta? Estarei deixando algo? Talvez esse seja meu destino. Meu caminho.
O esporte também possui suas ilhas.
A categoria confortável.
O troféu certo.
O adversário conhecido.
O torneio que você evita porque talvez descubra que não está tão preparado quanto imaginava.
O treino em que você executa apenas aquilo que já domina.
Tudo parece seguro.
Mas existe um preço.
Cada ação gera uma reação e lembre-se de que não fazer também é uma ação.
Você decidiu parar, ancorou seu barco, parou de navegar.
E surge o que talvez seja uma das perguntas mais desconfortáveis de um atleta:
Estou realmente em paz ou apenas encontrei uma forma confortável de não enfrentar aquilo que preciso enfrentar?
Então, onde fica Ítaca?
Aqui reside a parte mais interessante.
Ítaca não é um troféu.
Um ranking.
Uma convocação.
Essas coisas podem fazer parte da viagem, mas são destinos frágeis demais para sustentar uma vida.
Sempre haverá outro troféu.
Outro ranking.
Outro jogador melhor.
Outra temporada.
Outra meta.
Se Ítaca estiver apenas no resultado, o atleta estará condenado a viver permanentemente no mar.
O que será sua Ítaca?
Talvez seja aquele ponto em que você consegue olhar para o atleta que se tornou e reconhecê-lo.
Não porque venceu tudo.
Mas porque atravessou derrotas sem abandonar aquilo em que acreditava.
Porque perdeu e voltou para treinar.
Porque sentiu medo e entrou na quadra mesmo assim.
Porque descobriu suas limitações sem transformá-las em identidade.
Porque percebeu que resiliência não significa atravessar a tempestade sem sofrer.
Significa não permitir que a tempestade decida quem você será depois dela.
Suas Raízes
No retorno de Ulisses um diálogo com Penélope (sua esposa) chama atenção e que talvez seja ainda mais poderosa que o próprio retorno.
Cansada e incrédula com a volta de seu amor Penélope o põem a prova.
Ulisses havia construído o leito ao redor do tronco de uma oliveira viva. Uma de suas bases era a própria árvore enraizada no solo.
Por isso, a cama não poderia simplesmente ser deslocada.
Ela tinha raízes.
Depois de tantos anos, essa imagem funciona quase como uma pergunta deixada pelo mito:
O que existe em você que não pode ser arrancado?
Para um atleta, talvez essa pergunta seja mais importante do que parece.
Quando o ranking desaparece.
Quando chega a derrota.
Quando o parceiro vai embora.
Quando o corpo falha.
Quando ninguém está assistindo.
Quando os aplausos terminam.
O que permanece?
Talvez ali estejam suas raízes.
Voltar diferente
Há uma interpretação da resiliência que sempre me incomodou.
A ideia de que superar os desafios significa voltar a ser exatamente como éramos antes.
Não.
Ulisses não volta igual.
Talvez nós também não devêssemos.
Algumas derrotas precisam nos modificar.
Algumas tempestades precisam arrancar partes de nós.
Alguns fracassos precisam destruir certezas que nunca foram tão sólidas assim.
O objetivo não pode ser sair intacto.
No fundo é impossível sair ileso, sem marcas, cicatrizes.
Talvez amadurecer como atleta seja exatamente isso:
desconstruir versões de si mesmo durante a viagem até erigir aquela que chegará a Ítaca.
Da próxima vez que entrar em uma quadra talvez valha esquecer por alguns segundos o ranking, a categoria e o resultado.
E perguntar:
Para onde, afinal, você está tentando voltar?
Porque podemos passar anos treinando golpes, corrigindo movimentos e perseguindo vitórias sem perceber que estamos navegando sem destino.
Ulisses tinha Ítaca.
E você?
Talvez essa seja a viagem mais longa do esporte.
E, provavelmente, a única que realmente importa.
Até o próximo Lob.
Porque algumas ideias permanecem no ar mais tempo do que a bola.

